IDNF‑Tapajós: quem fica isolado quando o rio baixa
O Índice de Dependência da Navegação Fluvial (IDNF) e o painel de cenários respondem, para o rio Tapajós (PA), a uma pergunta que a Defesa Civil ainda não tinha como responder: quantas pessoas, em quais localidades e municípios, ficam sem acesso, abastecimento e serviços essenciais quando a navegação é restrita ou interrompida.
O painel funciona hoje em ambiente local da equipe técnica e ainda não tem endereço público. As telas desta página são capturas reais da versão atual.
Na seca amazônica, as comunidades não são atingidas: são desconectadas
Nos anos hidrológicos de 2023 e 2024 o Tapajós registrou os menores níveis de sua série histórica. Em setembro de 2024 a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou situação crítica de escassez hídrica no trecho entre Itaituba e Santarém (Resolução ANA nº 212/2024), e a navegação de comboios foi suspensa por falta de calado.
Diferentemente de uma inundação, a seca não destrói ativos. Ela suprime, progressivamente, a acessibilidade: param o transporte de passageiros e o transporte escolar fluvial, faltam alimentos, combustível e medicamentos, a referência hospitalar fica fora de alcance e a captação de água fica comprometida. Nada disso é visível por sensoriamento remoto. Todos esses efeitos exigem saber, antes do evento, quem depende de quê.
Não existia no Brasil uma base que identificasse quais populações dependem da navegação fluvial e em que grau. O IDNF‑Tapajós foi construído para preencher essa lacuna no nível da localidade ribeirinha, com método reprodutível e desenhado para replicação em outras bacias.
Cenário C3 (estiagem de 2024) · nível N1 (restrição de calado) · localidades com IDNF ≥ 0,50 (τ = 0,50) · população Censo 2022 · cotas ANA 1968–2025 · calculado em 13/08/2026 e verificado de forma independente. A faixa é o intervalo P05–P95 da sensibilidade aos pesos do índice; não é intervalo de confiança estatístico.
Produtos do piloto
Todos os produtos abaixo existem e foram verificados por revisão independente. O que está implementado funciona em ambiente local da equipe; o que depende de decisão ou de dado externo está marcado como tal.
Índice de dependência por localidade
ImplementadoUm valor de 0 a 1 para cada uma das 791 localidades dos cinco municípios, combinando mobilidade, abastecimento e serviços críticos. Cada indicador carrega fonte, data de referência, método e status. Nenhuma localidade com menos de 20 domicílios é publicada (proteção de sigilo).
Cenários de restrição à navegação
ImplementadoDias por ano com o rio abaixo de três limiares (N1 restrição de calado, N2 restrição severa, N3 interrupção), por trecho de controle, em três cenários observados: ano típico (climatologia 1968–2025), estiagem de 2023 e estiagem de 2024. Os limiares são calibrados por percentis empíricos ancorados nos decretos do S2ID e permanecem provisórios até a chegada de cotas oficiais.
Painel de cenários
Implementado (local)Seleção de cenário, nível e corte τ; contador de população sempre acompanhado da faixa de incerteza; tabela por município; mapa das localidades; ficha municipal; comparador ano típico × 2024; ajuste dos pesos com recálculo pela API.
Arquivos para SIG e API
Implementado (local)Exportações GeoPackage e CSV (localidades, índice com faixas, trechos, população afetada por cenário) prontas para QGIS, e uma interface de programação com seis consultas que recalcula índice e população afetada para qualquer combinação de parâmetros.
Validação e robustez
DocumentadoSensibilidade a pesos (10.000 combinações), a limiares (18 combinações) e ao raio de busca viária; comparação com decretos do S2ID; validação externa com 96 municípios ribeirinhos do Pará. Resultados favoráveis e desfavoráveis estão registrados.
Relatório técnico e manuais
ElaboradosRelatório técnico consolidado (42 páginas), nota ao gestor de duas páginas e três manuais: metodologia, uso da plataforma e tecnologias. Disponíveis internamente na DPM; a publicação externa depende da validação institucional.
Cenários modelados e replicação
PrevistoCenários com modelagem chuva‑vazão calibrada, tiles vetoriais para publicação web, validação de campo com questionário já elaborado e replicação do método em outras bacias amazônicas. Nenhum desses itens tem prazo definido.
Telas reais do painel de cenário
Capturas de 30/09/2026 da versão atual (E10/D7), executada em ambiente local com a API do projeto ativa. Cores, valores e legendas são os originais. Clique em uma tela para ampliar. Interface em desenvolvimento: sem mapa‑base cartográfico por decisão de proveniência e sem endereço público.
Origem das capturas: painel React/MapLibre/deck.gl do projeto, servido localmente a partir da compilação de 14/08/2026 e conectado à API FastAPI do projeto. Nenhuma tela foi gerada artificialmente.
Dos dados públicos ao número de pessoas
O pipeline separa três coisas que costumam ser confundidas: a ameaça (o rio baixou, por quanto tempo), a dependência (a localidade precisa do rio para viver) e a população exposta. O número final combina as três.
Ameaça
As séries diárias de cota das duas estações de controle viram dias por ano abaixo de cada limiar de navegação, por trecho (Baixo e Médio Tapajós) e por cenário.
Localidades
Os endereços do CNEFE são agrupados por proximidade; a população do setor censitário é rateada por domicílios, com fechamento exato ao total do Censo por município.
Conectividade
Um grafo viário do OpenStreetMap testa se há rota terrestre à sede e ao hospital de referência e compara os tempos terrestre e fluvial.
Índice
Dez indicadores em três dimensões são normalizados e agregados por média geométrica ponderada, que evita que uma dimensão compense totalmente a outra.
Pessoas
Soma‑se a população das localidades com índice acima do corte e cujo trecho atinge o nível de restrição no cenário. O resultado vem sempre com faixa e pessoa‑dias.
Fórmula do índice, na forma implementada: IDNF = Π (Dk + ε)wk, com Dk a nota de cada dimensão entre 0 e 1, pesos wk somando 1 e ε = 0,01. A dimensão “meios de vida” prevista na nota técnica ficou fora do piloto por falta de indicadores; os pesos das três dimensões restantes foram renormalizados (0,389 / 0,333 / 0,278).
Decisões que os produtos podem apoiar
Usos compatíveis com o estágio atual (triagem e priorização)
- Priorizar visitas de campo e validação local a partir da lista de localidades de maior dependência, começando pela calha ribeirinha de Aveiro, onde estão 18 das 20 localidades mais críticas.
- Pré‑posicionar água, combustível e medicamentos antes do período de vazante nas localidades de maior índice e sem rota terrestre (57% do total).
- Monitorar as réguas das duas estações de controle em relação aos limiares N1, N2 e N3, para antecipar quando cada trecho entra em restrição.
- Articular com o DSEI e a FUNAI: 6 das 20 localidades mais críticas são aldeias ou comunidades indígenas.
- Planejar rotas alternativas e apoio logístico nos municípios em que a dependência é sobretudo rodoviária (Rurópolis, Belterra).
Usos potenciais, ainda não implementados ou avaliados
- Alerta antecipado ligando previsões de nível do rio aos cenários do painel; hoje o painel trabalha apenas com cenários observados.
- Replicação em outras bacias amazônicas (Madeira, Solimões, Purus, Juruá, Negro, Branco e Baixo Amazonas), prevista na nota técnica e ainda não iniciada.
- Dimensão econômica (pesca, escoamento da produção, vínculos portuários), que depende de extrações institucionais ainda não obtidas.
De onde vêm os números e como lê‑los com cuidado
Fontes de dados e datas de referência
| Fonte | Uso no estudo | Referência |
|---|---|---|
| Censo Demográfico e CNEFE (IBGE) | população, domicílios, fonte de água, desenho das localidades | 2022 |
| Cotas diárias ANA/SNIRH (estações 17730000 Itaituba e 17900000 Santarém) | dias de restrição por cenário | 1968–2025 |
| S2ID (Defesa Civil) | ancoragem dos limiares e comparação de ordem | 2022–2024 |
| CNES (Ministério da Saúde) | referências hospitalares e UBS fluvial | jul/2026 |
| OpenStreetMap | rede viária para rotas terrestres | ago/2026 |
| IBGE Ligações Rodoviárias e Hidroviárias | participação do modal hidroviário na sede | 2016 |
| Base Hidrográfica Ottocodificada (ANA) | eixo navegável e trechos de controle | 2017 |
Índice, população afetada e sensibilidade calculados em 13/08/2026; testes de robustez e validação externa em 14/08/2026. O pipeline tem 154 testes automatizados e cobertura de 82% no núcleo de cálculo; os resultados foram replicados de forma independente com divergência zero.
Limiares de navegação: por que são provisórios
Não existe cota oficial de interrupção de navegação para o Tapajós. Os limiares N1, N2 e N3 (Baixo Tapajós: 150, 90,2 e 50 cm; Médio Tapajós: 250, 211 e 178 cm na régua local) foram calibrados como percentis empíricos da série histórica (P10, P05 e P02), ancorados nos decretos de estiagem de 2023 e 2024. Estão marcados como PROVISIONAL em todo produto e serão substituídos, sem mudança de código, quando a Capitania dos Portos ou a administração hidroviária informar as cotas oficiais por classe de embarcação. O número principal é robusto a essa escolha: 17 das 18 combinações testadas reproduzem 50.052 pessoas.
O que a faixa de incerteza cobre e o que não cobre
A faixa publicada (32.474 a 82.418) mede a sensibilidade aos pesos entre as dimensões em 10.000 combinações plausíveis. Um envelope mais conservador, que varia também os pesos internos de cada dimensão, vai de 15,8 mil a 83,2 mil. A faixa não cobre a incerteza dos limiares, as lacunas nas séries de cota nem as imprecisões de população e conectividade. Não é um intervalo de confiança estatístico.
Validação: o que foi possível e o que não foi
Os cinco municípios decretaram estiagem em 2023 e 2024, então não há grupo de comparação dentro do estudo. A ordem de população afetada por município coincide com a ordem dos afetados registrados no S2ID de 2024 (com apenas cinco municípios, isso é plausibilidade, não prova). Uma versão simplificada do índice para 96 municípios ribeirinhos do Pará tem correlação de ordem de 0,90 com o índice completo e coloca no topo estadual o Marajó e a calha do Amazonas, como a literatura espera. Por outro lado, o índice não prevê decreto de estiagem (área sob a curva ROC de 0,545, indistinguível do acaso): o decreto mistura exposição com a cultura de registro de cada município.
Outras cautelas de leitura
- A dimensão “meios de vida” está ausente: o índice pode subestimar a dependência econômica do rio.
- A conectividade vem do OpenStreetMap: 47% das rotas terrestres têm algum trecho de classificação imputada; um “sem rota” pode ser “estrada não mapeada”. O núcleo mais confiável é o das localidades sem via mapeada a menos de 2 km (26,9%).
- Os números da estiagem de 2023 são piso: a série da estação do Médio Tapajós tem lacuna naquele ano (82% dos dias observados).
- A população por localidade vem de rateio censitário, não de contagem porta a porta; nomes seguem o CNEFE, sem acentos.
- Trairão ficou fora do núcleo do estudo: nenhuma de suas localidades está a menos de 10 km do eixo navegável (decisão pendente de confirmação do responsável técnico).
O que está pronto, o que está em validação e o que está previsto
O piloto técnico está completo e revisado. O que falta são decisões e dados de terceiros, não código. Só os itens concluídos têm data.
- ConcluídoPipeline reprodutível de aquisição, limiares, recorte territorial, localidades, conectividade, indicadores, índice, validação e publicação (13–14/08/2026).
- ConcluídoPainel de cenários, API e exportações para SIG, com testes de integração e roteiro de teste manual.
- ConcluídoRevisão independente de cada etapa (11 pareceres) e rodada de robustez: limiares, raio de busca viária, pesos, validação externa e anexo sobre Trairão (14/08/2026).
- ConcluídoRelatório técnico, nota ao gestor e três manuais (metodologia, uso, tecnologias), de circulação interna.
- Em validaçãoLimiares oficiais de navegação: depende de ofício à Capitania dos Portos e à administração hidroviária; até lá, limiares provisórios.
- Em validaçãoDecisões do responsável técnico: exclusão de Trairão, critério de “trecho atinge o nível” e raio de busca viária (recomendações e anexos já prontos).
- Em validaçãoValidação institucional dos documentos antes de publicação externa.
- PrevistoValidação de campo com questionário de 13 itens já elaborado; camadas oficiais de terras indígenas e quilombolas; dimensão de meios de vida.
- PrevistoPublicação web com tiles vetoriais e mapa‑base, cenários modelados por chuva‑vazão e replicação em outras bacias. Sem prazo definido.
Documentos do projeto e fontes consultadas
Documentos do projeto
Circulação interna na DPM/SEDEC até a validação institucional; esta página não os disponibiliza para download.
- Relatório Técnico IDNF‑Tapajós — versão consolidada, 42 páginas, com cartografia oficial e anexos A–H. acesso interno
- Nota ao gestor — duas páginas com o número principal, a leitura por município e as três providências que dependem de terceiros. acesso interno
- Manual de Metodologia, Manual de Uso da Plataforma e Manual de Tecnologias — série de três documentos autocontidos. acesso interno
- Nota técnica de proposição (DPM/SEDEC/MIDR, 2026) — proposta metodológica e de plataforma que originou o projeto. acesso interno
Glossário breve
- IDNF
- Índice de Dependência da Navegação Fluvial: valor de 0 a 1 por localidade, que mede quanto a população depende do rio para mobilidade, abastecimento e serviços.
- Ameaça
- Propriedade do rio e do trecho: com que frequência e por quanto tempo a navegação fica restrita. Aqui, dias por ano abaixo de cada limiar.
- Cenário
- Ano hidrológico observado usado como referência (ano típico, 2023 ou 2024). Não é previsão.
- Nível de restrição
- N1 restrição de calado; N2 restrição severa; N3 interrupção. Cada um tem uma cota de referência por trecho.
- Corte τ
- Valor mínimo do índice para que a localidade entre na contagem de população afetada (padrão 0,50).
- Pessoa‑dias
- Pessoas em localidades dependentes multiplicadas pelos dias de restrição no cenário; mede a severidade.
- Faixa de sensibilidade
- Intervalo P05–P95 do resultado quando os pesos do índice variam; acompanha todo número publicado.
Referências externas
Links externos exigem conexão com a internet. Fontes de método estão separadas das evidências sobre o evento.
Contexto do evento
- Resolução ANA nº 212, de 25 de setembro de 2024 — Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico. Declara situação crítica de escassez quantitativa no trecho do rio Tapajós entre Itaituba e Santarém.
- ANA declara situação de escassez hídrica na Bacia do Tapajós (PA) — ANA, 2024.
- Entre 2023 e 2024, cerca de 60% do território brasileiro foi afetado por seca extensa e intensa — Cemaden/MCTI, nota técnica de avaliação da criticidade da seca, 2025.
Dados de base
- Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos (CNEFE), Censo Demográfico 2022 — IBGE, 2024.
- Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) — SEDEC/MIDR.
- Declarações de escassez hídrica — ANA.
Método e terminologia
- Sendai Framework Terminology on Disaster Risk Reduction — UNDRR, 2017. Definições de ameaça (hazard), exposição e vulnerabilidade usadas para separar os conceitos.
- Handbook on Constructing Composite Indicators: Methodology and User Guide — OECD e JRC (Comissão Europeia), 2008. Referência para normalização, ponderação, agregação e análise de sensibilidade de índices compostos.