Toda a rede hidrométrica do país, com a pergunta certa na frente
Aquisição guiada de inventário, séries históricas e telemetria da ANA
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico mantém o maior acervo hidrométrico do país e o oferece por serviços públicos na internet. O difícil nunca foi baixar: foi escolher. Quais estações têm série longa o bastante para uma análise de frequência? Quais chegam até ontem para alimentar uma previsão? Quais têm medição de descarga para ajustar uma curva-chave?
O sistema Webservice ANA coloca essas perguntas na ordem certa: uma receita arma os critérios, quatro passos os explicam, um funil mostra quanto cada um cortou e, só então, o lote é baixado, diagnosticado ano a ano e exportado nos formatos que o FERAH e a comunidade hidrológica já usam.
Números do inventário lidos na interface em 30/09/2026 e medições registradas na documentação de implementação (docs/09, agosto de 2026). O sistema não mantém um acervo próprio de séries: cada lote é baixado sob demanda dos serviços da ANA.
Sem dado de estação não há vazão de projeto, alerta de cheia nem curva-chave
Quase tudo o que a Diretoria de Prevenção e Mitigação calcula sobre rios começa numa estação da ANA: a série de vazões que alimenta a análise de frequência de cheias, a cota que calibra uma curva-chave, a chuva que força um modelo hidrológico, a leitura telemétrica de ontem que atualiza o estado de uma previsão. Os outros sistemas da plataforma FERAH dependem desse acesso.
O painel do software legado fazia esse trabalho em 3.821 linhas de interface, com seis quadros de filtros abertos ao mesmo tempo e cinco deles mutuamente excludentes: marcar um desabilitava os outros. Cada consulta baixava o inventário inteiro, 61 MB, antes de responder qualquer coisa. A tela parecia travada.
O porte web guardou a lógica que funcionava, o cliente dos serviços da ANA, e trocou a ordem das perguntas. Primeiro o quê, depois onde, depois quais, por fim com que exigência. E antes de baixar, o funil diz quantas estações restaram e por quê.
O que muda para quem usa
- Receitas em vez de formulários. Um clique arma os critérios da tarefa e o cartão explica por que aqueles valores.
- Filtros que se compõem. Todos os atributos do inventário combinam entre si, inclusive a área desenhada no mapa e a bacia de um rio da BHO.
- O funil antes do download. "Por que só sobraram doze?" tem resposta antes de qualquer requisição à ANA.
- A ficha da estação como gaveta. Abre sobre qualquer tela, por clique no mapa ou por Ctrl+K, e fecha no Esc, sem perder a seleção de vista.
- Diagnóstico ano a ano. Cada ano aceito ou recusado pelo critério de falha, e cada estação descartada sai com o motivo registrado.
Uma receita, quatro passos e um funil
O fluxo de seleção é o coração do sistema. As capturas abaixo mostram a receita "Análise de frequência" aplicada à rede fluviométrica nacional em 30/09/2026.
Análise de frequência
Vazões, pelo menos 30 anos, critério de falha tolerável a 10%, só estações com área de drenagem cadastrada. Trinta anos é o mínimo praticado para ajustar Gumbel ou GEV com incerteza aceitável.
Previsão operacional
Vazões consistidas, com bruto e telemetria nas falhas; só estações telemétricas em operação; pelo menos 5 anos. Séries que chegam até ontem.
Curva-chave
Cotas pela média das leituras de 7h e 17h; só estações com medição de descarga líquida e com área.
Chuva para modelagem
Rede pluviométrica, soma diária, pelo menos 20 anos, falha tolerável a 10%.
Rede básica ativa
O que a ANA opera hoje: só estações da rede básica em operação.
Só inventário
A tabela de estações com todos os atributos, sem baixar nenhuma série.
O funil com números reais
Escala das barras proporcional ao número de estações. Fonte: interface do sistema (30/09/2026) e tela Consultas, lote de 25/08/2026.
Pirapora Barreiro, no São Francisco: 57 anos aceitos em 59
A ficha da estação 41135000 (Pirapora Barreiro, rio São Francisco, MG, 62.200 km²), aberta pela busca rápida em 30/09/2026, com a série baixada ao vivo da ANA.
O que a ficha mostra
- Série. 21.150 registros diários de vazão de 02/06/1968 a 30/04/2026, 57,9 anos com 0,0% de falha, média de 754,32 m³/s. A origem de cada dado fica visível: 20.301 valores consistidos e 849 brutos que preencheram lacunas.
- Diagnóstico anual. 59 anos na série, 57 aceitos pelo critério de falha tolerável a 10%, maior sequência de 57 anos. O ano de 1968, com 41,8% de falha, é recusado; todos os outros passam.
- Máximas anuais. 57 picos com data e falha do ano, prontos para a análise de frequência: 6.615 m³/s em 18/02/1979, o maior da série.
- Bacia pela BHO. A ficha da ANA já traz a ottobacia em que a estação cai (76951173) e a área pela base, 61.990 km², ao lado dos 62.200 km² do inventário.
O consistido tem precedência, o bruto preenche as lacunas e nunca sobrescreve, a telemetria estende a série até ontem. É o padrão do FERAH, e a ficha mostra quantos valores vieram de cada origem.
Três telas e uma gaveta
Seleção, Consultas e Telemetria; a ficha da estação abre sobre qualquer uma delas. Capturas de 30/09/2026 no ambiente interno do DPM. Selecione uma imagem para ampliar.
Inventário em cache, seleção sem baixar, lote em segundo plano
Inventário
O cadastro nacional é baixado da ANA (cerca de 7 s, 61 MB), guardado em Parquet de 1,5 MB por rede e lido em 80 ms. O indicador no topo avisa quando ele vence, aos 7 dias, e um clique o rebaixa.
Seleção
Receita, passos e mapa filtram o inventário local. A trilha registra quanto cada critério cortou; nenhuma requisição à ANA acontece ainda.
Lote
As séries são pedidas ao serviço da ANA com 3 conexões simultâneas e um intervalo mínimo de 350 ms entre requisições. Com seis conexões, boa parte de um lote voltava vazia: a ANA limita a taxa.
Consolidação
Consistido com precedência, bruto nas lacunas, telemetria até ontem. O critério de falha avalia cada ano; quem não passa sai com o motivo.
Exportação
DAT tipo 1 e tipo 2 (o formato do HIDRO), CSV longo e largo, planilha, ZIP por estação e a tabela do inventário com o motivo de cada descarte.
O cliente da ANA que os outros sistemas chamam direto
Previsão hidrológica
A telemetria de ontem atualiza o estado dos reservatórios do modelo antes de projetar os próximos dias. Em 22/08/2026 a estação 85900000 devolvia 2.489 m³/s às 7h do dia anterior.
Curva-chave e HAND
As cotas e medições de descarga que ajustam a curva-chave das cerca de 15 mil estações vêm do mesmo cliente.
Conjuntura hidrológica
As séries e o recorte espacial da anomalia hidrológica nacional.
Clima-SIN
O fator entre o pico instantâneo e a média diária, medido na telemetria da ANA para as vazões de projeto.
BHO
Na direção contrária: a bacia de um rio da BHO vira área de interesse da seleção. A ottobacia 8629111 (Rio Negro, PR/SC) delimita 33 estações; a bacia de Piranhas (49330000) mede 610.279 km² pela BHO contra 610.000 km² no inventário, +0,05%.
Regra de fronteira
Cada sistema chama o cliente do núcleo compartilhado, sem HTTP entre sistemas. Se este cair, a Previsão continua conversando com a ANA.
O que o sistema consome, o que guarda e o que ainda não faz
Serviços da ANA
- Serviço público de telemetria e séries (ServiceANA): inventário, séries históricas, dados hidrometeorológicos, rede telemétrica, rios, sub-bacias, entidades e municípios. Sem autenticação; respostas em XML lidas diretamente.
- Serviço antigo do HidroWeb: desativado, não reimplementado.
- HidroWeb v2 com token: no ar, fora do escopo.
Dados e formatos
- Inventário: 17.914 fluviométricas e 22.819 pluviométricas (30/09/2026), 40 campos por estação, cache válido por 7 dias.
- Séries de cotas, vazões e chuvas, consistidas (nível 2) e brutas (nível 1); cotas em três famílias (média diária, 7h e 17h).
- Telemetria sub-diária de vazão, nível e chuva, agregável ao dia.
- Lote: padrão de 3 conexões e limite de 3.000 estações por consulta.
Limitações
- Depende de internet até a ANA para séries e telemetria; só o inventário em cache responde sem rede.
- A ANA limita a taxa (HTTP 429): o cliente espera, tenta quatro vezes e desiste com erro claro.
- O certificado do serviço da ANA costuma falhar na cadeia; a verificação de TLS está desligada, decisão registrada.
- O consistido atrasa anos; para o presente, a telemetria é a fonte.
- A bacia de estações grandes na BHO leva até um minuto na primeira vez (50 mil ottobacias); depois fica em cache e responde em 0,2 s.
Estável, em uso interno, sem acervo próprio
- As três telas, a gaveta da estação, as seis receitas, os quatro passos e o funil (reorganização de 25/08/2026).
- Cliente dos serviços da ANA no núcleo compartilhado, usado por Previsão, Curva-chave, Conjuntura e Clima-SIN.
- Exportação nos formatos DAT (tipo 1 e 2), CSV, planilha e ZIP.
- Sistema em operação no ambiente interno do DPM, sem endereço público.
- O quadro de estado dos sistemas (04/09/2026) registra "estável, nada pendente".
- Os lotes existentes são de teste (25/08/2026); o sistema não mantém acervo de séries: cada estudo baixa o que precisa.
- Cliente da HidroWeb v2 com token, quando houver credencial institucional.
- Rebaixa automática do inventário pluviométrico, hoje manual quando vence.
Serviços, marco institucional e documentação
Serviços e dados
- ANA. Portal HidroWeb, Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos: snirh.gov.br/hidroweb.
- ANA. Serviço de dados hidrometeorológicos e telemetria (ServiceANA): telemetriaws1.ana.gov.br.
- ANA. Base Hidrográfica Ottocodificada 2017 5k: metadados.snirh.gov.br.
- Brasil. Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997 (Política Nacional de Recursos Hídricos). Planalto. Lei nº 12.608, de 10 de abril de 2012 (Política Nacional de Proteção e Defesa Civil). Câmara dos Deputados.
Documentação do projeto
- FERAH. Implementação web dos módulos BHO e Webservice (docs/09, Parte II), agosto de 2026. Documento interno do DPM.
- FERAH. README do sistema Webservice ANA: as três telas, o fluxo da seleção, o mapa e os atalhos.
- FERAH. Estado dos sistemas, retrato de 04/09/2026 (docs/30-migracao). Documento interno.
- FERAH. Legado: painel de acesso ao webservice HIDRO do FERAH/OpenJUMP (3.821 linhas), origem do cliente portado.
Glossário breve
- Código de estação
- Identificador de 8 dígitos da ANA; o sistema normaliza os zeros à esquerda que os serviços tratam de modo diferente.
- Consistido e bruto
- Nível 2, revisado pela ANA e pela operadora, e nível 1, como saiu do campo. O consistido atrasa anos.
- Telemetria
- Rede automática com leituras sub-diárias, disponíveis até o dia anterior.
- Inventário
- Cadastro nacional de estações, com situação, responsável, operadora, área de drenagem e datas de operação.
- Receita
- Conjunto de critérios pré-montado para uma tarefa, com a justificativa de cada valor.
- Funil (trilha)
- Quantas estações sobram depois de cada critério.
- CF, SF, CFT
- Critérios de falha por ano: aceita todo ano; aceita só ano completo; aceita se a falha ficar abaixo da tolerância.
- Lote
- Download em segundo plano, gravado em disco, com diagnóstico por estação e exportação.